No dia 16 de setembro de 2017 cheguei a São Paulo tensa e insegura. Toda aquela minha vontade de ir cantar num palco grande tinha se misturado com medo e uma certa estranheza também. Por algum motivo eu achava que tudo aquilo era inadequado pra uma mulher da minha idade, com uma vida toda arrumadinha, marido, filho… Mas havia uma voz dentro de mim gritando: “se joga!” – e eu precisava obedecer. Não tinha mais volta a essa altura do campeonato, literalmente!

O mais engraçado é que em momento algum a ideia da vitória passou pela minha cabeça. Se foi isso o que me manteve serena e me levou até lá, sinceramente, eu não sei. Mas lembro de ter lido uma frase alguns dias antes da viagem, e de vez em quando ela piscava num “led” dentro de mim. A frase era: QUEM TEM MEDO DE PERDER, NUNCA VENCE. Será que foi isso? O medo existia de fato, mas era de mim mesma. Medo de estar sendo ridícula, de decepcionar minha família, de travar no meio do palco e não conseguir cantar… De resto, o que viesse era lucro!

Na véspera da final tivemos uma reunião dos finalistas em um salão com karaokê. Foi um momento meio estranho, em que todos olhavam para todos e ninguém queria se revelar muito. Não viajei pra Sampa com o time do Rio, mas naquela tarde nos sentamos juntos e ficamos unidos, como se já nos conhecêssemos há décadas. A verdade é que nos vimos só na final carioca, depois o contato se limitou a um grupo de whatsapp. Lembro de ter ficado muito emocionada com o Thiago quando ele cantou na final aqui no Rio – mas naquele encontro ele estava mudo como eu, fechado em sua conchinha, com seu já famoso cachecol no pescoço.

No grande dia cheguei sozinha ao Tropical Butantã, enquanto minha torcida se arrumava pra assistir ao evento. Torcida que, diga-se de passagem, tinha aumentado muito com relação às etapas cariocas (assunto do meu último post. CLIQUE AQUI).

Logo que entrei no camarim, percebi que o clima era completamente diferente daquela frieza na véspera. Todo mundo se cumprimentando, querendo saber os nomes e as músicas que cada um ia cantar – parecia que todos éramos parte de uma equipe, prestes a estrear um espetáculo, todos juntos.

E se você parar pra pensar, era exatamente isso o que estava prestes a acontecer. Não estávamos ali competindo uns contra os outros, mas cada um contra seus próprios limites, medo, tensão. E quando chega a hora, parece que essa realidade vem à tona e todos viram grandes apoiadores uns dos outros.

De repente pintou um violão e todos nós cantamos juntos, enquanto penteados e maquiagens iam ganhando forma. Alguns ficavam mais quietos, mas ninguém estava indiferente àquela vibe de alegria e harmonia.

Quando a competição estava prestes a começar o camarim virou nosso templo. De mãos dadas nós oramos juntos uns pelos outros, com muita verdade e amor, cada um do seu jeito, na sua fé. Foi um dos momentos mais fortes que vivi em todo o KWC.

Minha primeira música era Georgia On My Mind , na versão não muito conhecida de Ella Fitzgerald. Vesti um longo esvoaçante – emprestado pela minha amiga-torcedora Rachel – e entrei no palco com a visão ofuscada pelos canhões de luz. Dava pra ouvir os gritos da minha família e do time carioca, mas eu tentei não olhar, pra não me desconcentrar. A verdade é que mais uma vez eu estava tremendo de cima a baixo. Fiz uma prece no microfone, pedindo à música que nos abençoasse (nem sei de onde eu tirei isso, mas saiu na hora!) e comecei a cantar completamente travada.

Quando eu estava na segunda estrofe a voz que gritava na minha cabeça pra eu me jogar veio me acordar do transe. Lembro dela dizendo: “Você não está fazendo metade do que ensaiou! Ficou doida? Acha que vai ter outra chance? Se jogaaaaa!” – e este momento fica muito claro no vídeo da final, quando a cantora comedida deu lugar a uma leoa, que arrebatou a plateia e se rasgou inteira, sem medo, sem travas.

Saí do palco ovacionada, sentindo que poderia estar no top 5 daquela noite. E isso já aliviava um pouco a minha consciência, aflita por ter arrastado os parentes todos pra São Paulo. Dali em diante seria só festa, alegria – e a minha segunda música tinha exatamente este espírito. Quando entrei no palco pra cantar Price Tag (Jessie J.), tudo o que eu queria era realizar aquele sonho que vinha desde a seletiva: me esbaldar num palco grande e me sentir uma cantora novamente.

Vestindo um tubinho de lantejoulas eu já entrei dançando naquele palco gigante. Quase perdi o fôlego no rap, mas naquela hora eu já não estava nem aí – e a plateia estava junto comigo. Era como se fosse o meu show!

Depois da apresentação dos campeões de 2016, os lindos Mike Maia e Bruna Higashi, fomos todos chamados ao palco. Eu podia ver a tensão no rosto de cada um, mas pra mim já estava tudo bem. Meu objetivo já tinha sido atingido e minha família estava me esperando lá embaixo pra tomar um chope e brindar meu retorno à música!

Uma por uma as mulheres foram chamadas, em ordem crescente de classificação. E só neste momento, quando olhei para os lados e percebi que éramos só 3, que meu nome não tinha sido chamado… Só aí caiu a ficha de que eu poderia ter sido escolhida pelos jurados. De repente minhas pernas tremiam e eu comecei a suar frio. Fechei os olhos e ouvi o apresentador falar o meu nome.

Daí em diante minha memória vem em flashes. O coração ainda aperta quando lembro os gritos da minha família, meu filho subindo no palco e não largando a minha mão até eu descer – acho que ele percebeu o quanto eu estava zonza com tudo aquilo! Foram tantos abraços, beijos, lágrimas, uma alegria que não caberia aqui, nem que eu ficasse horas tentando explicar.

E ainda tinha a Finlândia! Mas essa ficha ainda demorou um bom tempo até cair! Aliás, por falar em fichas, escrever este post fez cair uma linda ficha aqui agora – me dei conta de que em agosto ou setembro deste ano eu estarei em São Paulo outra vez, cantando na final do KWC e dando as boas vindas a mais dois membros dessa família que enche meu peito de orgulho e alegria! Puxa! Mal posso esperar por esse dia! Quem serão os novos campeões brasileiros do KWC? Será que estão lendo este blog agora? Será que eles fazem ideia de toda a emoção que vão viver durante os próximos meses até a grande final? Será que você é um deles?

Bem, se você tem uma voz gritando aí na sua cabeça: “se joga!”, pode ser que a sua hora tenha chegado! Vai lá fazer sua inscrição, vai!

Desde já, estou contando as horas pra nos encontrarmos em São Paulo! Mas antes disso tem meu próximo post, falando sobre a nossa experiência na Finlândia! Prepara o cachecol que daqui a pouco eu volto!

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